Estava sentada a escrever. Rabiscava frases sem sentido, construía parágrafos sem nexo. Não precisava de fazer sentido, para mim aquelas palavras que aparentemente não tinham ligação entre si fazem mais sentido que as coisas mais certas da vida.
Não preciso que ninguém compreenda, não preciso que ninguém entenda, era para mim que escrevia, para a minha alma.
Enquanto coleccionava folhas escritas e textos deambulantes pensei que se alguém me lesse provavelmente não me iria compreender. Nem mesmo tu.
Para além das palavras está o que sinto, o que sou, estou eu na minha experiência, estou eu no meu ser, e é aí que está o sentido de cada parágrafo, de cada frase, de cada palavra.
Estava sentada a escrever quando alguém me toca.
Assustei-me. Não entendi. Perguntei-me como.
Do outro lado estava quem me via para além das letras. Do outro lado estava quem conseguia ler o verdadeiro significado. Do outro lado estava quem percebia aquilo que rabiscava a mim própria, que dizia á minha alma.
Não acreditei. Duvidei. Mas percebi que do outro lado as palavras que escrevo para mim não falam só para mim.
Existe sempre alguém do outro lado que nos faz saber que não estamos sós e que nos toca de verdade.