Caminho para o nada

Preciso que sigas em frente sem olhar para trás.

(Não, espera!)

Preciso que sejas mais forte que eu.

(Pára, escuta!)

Preciso que me esqueças para sempre.

(Ou nunca!)

Preciso que este momento seja o final.

(Dá-me a mão, fica!)

Quero que guardes apenas este último beijo.

(Não me deixes ir!)

Quero que sintas este último abraço.

(Por favor, pára!)

Quero que saibas que vou-te amar para sempre.

(Para sempre.)

Tens de saber que já não consigo.

(Amar-te e não ter-te.)

Tens de saber que me magoas.

(Que me partiste o coração.)

Fica a saber que não é uma decisão fácil.

(Não quero, abraça-me!)

O nosso amor poderia ter sido tanto!

(Mas não quiseste!)

Tens de perceber que no amor não há uma segunda opção!

(É tudo ou nada!)

E poderias ter sido tudo.

Não olhes para trás.

(Nada.)

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Porquê escrever? 


“A escrita é um encontro entre duas pessoas através das palavras.”

Escrevo para estar contigo, escrevo para estar comigo. Para dizer tudo o que não pude falar e mostrar tudo o que não pude sentir. Para transformar as memórias em saudade, em paixão, em mágoa. Para nunca esquecer e para sempre poder recordar.
Escrevo para exorcizar. Para expelir os demónios e lavar a alma. Para não chorar. Para sorrir cada vez que releio cada memória partilhada.
Escrevo para conversar contigo. Porque a minha alma não pode ficar calada. Porque é assim que mantenho a chama acesa, a sensação de que estou aqui, estou presente, de que sou capaz de deixar a minha marca. Por mais pequena que pareça, mas afinal o que somos nós senão partículas espalhadas pelo universo? 

O que é este blog senão apenas palavras deitadas no vazio, que vagueiam entre o tempo e o espaço, que ecoam em ti, que vibram em mim?
Escrevo porque posso, porque preciso, porque quero, porque é urgente. Porque é para mim e é para todos e não é para ninguém, nem para ti.
Escrevo para não ter de o dizer.


Tenho saudades das tuas mãos. Oh meu deus, como tenho saudade das tuas mãos. E eu que nem sou religiosa sinto necessidade de usar esta expressão para dizer o quanto tenho saudades das tuas mãos! 

O vento sopra com força e o cabelo esvoaça loucamente, eu sorrio-te enquanto tu carinhosamente desvias o meu cabelo da cara e me beijas. Como tenho saudades dos teus lábios. Não consegui mais sentir o que sentia contigo quando me beijavas. Cuidadosamente prendes o meu cabelo por detrás da orelha. Beijas-me o pescoço e todo o meu corpo treme. Suspiras ao meu ouvido “adoro-te” mas eu sei que amas. Eu sinto que me amas. Quando me abraças e me puxas bem junto para ti, do cimo do monte, à beira do precipício, vista rio, cheiro a mar. Tu brincas: um dia vamo-nos casar aqui e ris. 
Eu sorrio e encosto a cabeça ao teu peito, junto ao teu coração: eu sei que tu me amas.

E há melhor sensação no mundo?

Só mesmo quando me atiras para a cama, despida de corpo e de alma e me mostras que me amas.
“Adoro-te, ouviste? Adoro-te!”

Eu ouço-te, desde a alma. E acredito, não tenhas dúvidas! As tuas mãos passeiam-se pelo meu corpo, brincam, pululam, provocam. E eu adoro as tuas mãos, o teu toque, o teu jeito, o teu beijo.

Adoro quando me amas e adoro quando me fodes. 

Os nossos corpos fundidos, as nossas almas entrelaçadas, a nossa mente delirante de tanto prazer, os nossos corações em uníssono. 

É lamechas mas que se lixe! É a verdade: mais ninguém me fez sentir como tu, me amou como tu, me fodeu como tu.
E ás vezes, tantas vezes, inesperadamente, sinto saudade. 

De ti. De tudo. De nós. 

Não digas nada.


Hey? Pssst! Tenho de perguntar-te… Contaste a alguém? O nosso segredo. Como assim qual?? Tu sabes do que falo. Aquele que guardamos entre os lábios entrelaçados, entre os corpos suados, entre as mãos cruzadas. Aquele que juramos nunca pronunciar. Sim…esse mesmo. Tiveste a coragem de contar a alguém? Eu espero que não, eu quero que não. Queria amar-te para sempre em segredo. 

Viver na surdina da nossa paixão, fechar os olhos e saber que para sempre iríamos existir nesta partilha misteriosa. Que foste fazer? Estragaste tudo. Ninguém tem de saber senão nós, o amor apenas a nós convém, a paixão apenas em nós vibra. Será que alguém sabe? Vamos apaixonar-nos por essa adrenalina. Será que alguém nota? 

As mãos que tocam sem querer. 

As pernas que roçam debaixo da mesa.

Os olhares cúmplices.

“Quero-te agora mas aqui não.”

“Beija-me não aguento mais, aqui que ninguém vê…” Mas à vista de todos! Á luz do dia, à porta antes de ires embora à socapa.

Não me digas! Não me digas que foste contar! És ridículo! Não temos que partilhar a não ser um com o outro. Estás tão quente, incendeias-me quando me abraças, vem cá agora e sussurra no meu ouvido o quanto me amas. Fala baixo para ninguém ouvir. Desliga as notificações das minhas mensagens. Não deixes ninguém perceber… Vamos viver no limbo, entre o real e a magia. 

Não sorrias para mim agora, não sejas ingénuo, toda a gente sabe que esse sorriso parvo só sai quando estás apaixonado. Não entregues o jogo tão facilmente. Tocas-me enquanto me passas a caneta, em frente a tudo e todos, dá-me vontade de rir o quanto tu arriscas, em troco de nada! Quê? Dá-te tesão? Gostas da ansiedade? Não tens medo? 

Cala-te e beija-me. Idiota.

Atreve-te.

Não digas nada a ninguém.

Eu e tu. Nada

Terei sempre medo quando me dizes olá.

Há anos que não te vejo, ouço a tua voz ou leio as tuas palavras, não passavas de uma memória longínqua. E de repente ao virar da esquina lá estavas tu. Irritei-me de verdade com o destino, com o timing, contigo!! Porque tinhas de estar ali? Visito Lisboa tão poucas vezes e logo agora a teoria das probabilidades esteve contra mim, o karma, o fado, chama-lhe o que quiseres! Numa imensidão de lugares – e olha que em todos imaginei a tua presença! – tinha de ser neste onde não te esperava.

Numa fracção de segundos pensei em mil cenários e engenhei a minha silenciosa fuga. Mas as forças do universo, a linha condutora, a sina, dá-lhe o nome que achares melhor, quis que tu deitasses o fumo do cigarro na minha direcção.

E lá estava eu parada, gelada, imóvel a olhar para ti com pânico no olhar, foi quando tu sorriste e cruzaste o olhar comigo.

Terá sido este o propósito desse cigarro? Que te fez sair de onde estavas no exacto momento em que eu cruzei a estrada, em que acendeste o cigarro calma e lentamente e eu virei a esquina e tu expiraste o fumo pesado e olhaste na minha direcção e eu na tua.

O momento que ficou suspenso.

E ainda por cima sorriste e eu sei porquê, conseguiste perceber o pânico nos meus olhos, foi isso que me irritou ainda mais. Depois de tanto tempo e mesmo sem trocar palavras consegues ler-me, ainda, facilmente.

Eu continuei imóvel, já não podia fingir que não te tinha visto, voltar atrás, apagar aqueles segundos, tomar a outra esquina – já não tinha escolha. Fitei o chão desconcertada e tu caminhaste na minha direcção. A cada passo que davas o meu coração apertava de dor. A cada passo que davas eu sentia medo, alegria, mágoa, paixão, tristeza e de repente parecia que estava a acordar de um sono profundo mas nada sereno. Nada mesmo. Era um acordar extremamente doloroso. E eu não queria mas queria tanto.

Disseste olá e eu… Eu desmoronei por completo por dentro. Tentei manter a postura, tentei não o mostrar… Os pedaços que tu deixaste partidos, quebrados, rachados, facturados da minha alma. Aqueles que te recusaste a colocar de volta, seria impossível de qualquer modo, não haveria super cola no mundo que me deixasse completa.

Só, talvez, o teu amor – mas não, nem isso.

Eu retorqui “Olá” e a minha voz tremeu, não consegui sorrir-te. Tu pegaste na minha mão e ficamos ali, naquela esquina, juntos mas afastados. Em silêncio, em segredo. Na surdina dos ecos do passado, do que fomos, do que sentimos e do que tivemos. E o que nos unia agora era apenas a fatalidade daquele momento em que chocamos um com o outro e fomos tudo o que fomos e somos o nada que somos.

Perfume de Baunilha

Ela não era o tipo de rapariga que combinava a roupa interior. Quando saía desajeitadamente do duche pegava no primeiro par de soutien e cuecas que lhe vinham à mão. A sua lingerie provavelmente não entrava na categoria de lingerie. A sua roupa interior, termos mais adequados, era confortável nunca deixando de ser bonita. Tinha algumas peças mais sexys, que a faziam sentir especial quando as vestia, mas sem nunca abdicar de se sentir bem.

Assim era ela. Desajeitada, confortável, bonita, fazia qualquer um se sentir bem.

Vestia-se igual a si mesma.

Ela tinha um perfume de baunilha que colocava todos os dias, sem falhar. Ela na brincadeira chamava-o de “A sua essência”. E na verdade quando ela passava já a reconheciam pelo aroma de baunilha que delicadamente ficava a pairar no ar, a dançar com os sentidos. E a sua essência envolvia-a docemente num sonho doce de desejo e luxuria e ela gostava dessa sensação. Nunca abdicava do seu perfume de baunilha.

Antes de sair de casa fazia sempre uma festinha ao seu gato, despedia-se dele num gesto, talvez um pouco macabro, de que se aquele fosse o seu último dia pelo menos ele saberia que foi amado até ao último segundo. Sorria e saía.

Para ela o conceito de viver apaixonadamente parecia-lhe algo tão abstracto, nunca percebeu bem o que aquilo significava. Para ela seria talvez o facto de viver sem arrependimentos, sair de casa de manhã e sorrir, caminhar para o trabalho com os phones nos ouvidos a ouvir as suas músicas favoritas.

Passar pelas pessoas, observar como se sentam e conversam, como se riem ou como se zangam. Para ela talvez fosse isso, não perder um segundo e ter a certeza de que se aquele fosse o seu último segundo, todos saberiam que foram absolutamente amados por ela.

E seguia a sua rotina interminável. Duche, roupa, sapatos, adeus ao gato, caminhar a sorrir, trabalho.

As horas no trabalho sempre lhe pareciam escassas e ao mesmo tempo intermináveis. Ás vezes sentia que havia tanto mundo lá fora para conhecer e que iria morrer parva naquele escritório em nome das regras da sobrevivência. As horas que gastava na sua vida em nome do “precisar dinheiro para viver”.

“Será?” – perguntava-se – “Será mesmo isso que precisamos para viver?”

Ela precisava do cheiro a mar para viver. Ela precisava de amor e de paixão para viver. Ela precisava profundamente das pessoas para viver.

Outras vezes sentia que todo o tempo era pouco, via o tempo no seu trabalho como um investimento que lhe permitiria um retorno com o qual poderia viver as mais variadas peripécias e aventuras.

E mais um dia passava e ela saía com um sorriso.

Adorava conduzir com a música alta e os vidros abertos. Dançava com os dedos no volante ao som da melodia que o rádio lhe oferecia. E cantava alto. Por vezes ria-se de si mesma, o que diriam se a vissem? E sorria. Talvez pensassem: “lá vai aquela rapariga feliz!” E ela até se sentia feliz! Pelo menos na maior parte das vezes.

Adorava estar com os amigos ao final do dia, numa qualquer esplanada com uma qualquer bebida na mão e uma mesa cheia de petiscos.

Haverá algo melhor que uma mesa cheia? Cheia de amigos, cheia de comida, cheia de amor!

E quando já era de noite e fazia o caminho de volta para casa pensava o quão sortuda se sentia por ter dias assim. Com minutos cheios de coisas boas. Não precisava de mais, ela tinha tudo o que poderia querer: amor, amizade, carinho e os prazeres simples da vida.

Quando rodava a chave já ouvia o seu gato a miar, talvez lhe estivesse a perguntar onde esteve todo o dia ou a exclamar o quanto sentira a sua falta ou estaria apenas a exigir comida. Ela fazia-lhe festinhas e olhava profundamente para ele, pensando para si mesma “mais um dia, estou aqui”. E sorria.

 

 

Ser Algarve.

Imagem: Por do Sol na Ria Formosa – Ludo, Faro. Erika de Brito

 

Ser Algarvio é muito mais do que a definição pode dar.
Quem cá nasceu, cresceu, viveu sabe que ser Algarvio é fazer parte. Fazer parte da terra e do mar.
É muito mais do que ser do Algarve. É sentir, é respirar, é ter o Algarve. É uma identidade. Um modo de sentir, um estado de espirito, um estilo de vida, é ser Algarve.

Somos Barlavento e Sotavento.
Somos mar.
Somos praias paradisíacas e praias de relax.
Somos passeios à beira mar, à beira rio, à beira ria.
Somo corridas ao final do dia, bicicleta de Vila Real de Santo António a Vila do Bispo, patins ao fim de semana, surf, kite e body board.
Somos mergulhos depois de um dia de trabalho, somos por-do-sol mágico.
Somos ilhas onde se passam momentos incríveis.
Somos Serra do Caldeirão, ribeiras e cascatas escondidas.
Somos petiscadas de inicio de semana, meio da semana e final de semana. Almoços até ás seis da tarde, jantares até à meia noite. Somos mesas cheias de famílias e amigos.
Somos peixe fresco no mercado de sábado, somos marisco da Ria Formosa. Somos doce de alfarroba, figo e amêndoa. Somos flor de sal.
Somos pescadores, mariscadores, pastores e agricultores.
Somos cozido de couve à Monchique e xarém com conquilhas.
Somos medronho e melosa.
Somos boa boca, boa cama e boa mesa. Um coração cheio de paixão pelo Algarve.
Somos povo que adora receber, portugueses e estrangeirados. Há sempre mais um lugar na mesa, há sempre uma história para contar, uma lenda pra saber, uma praga de Alvor pra rogar!
Gostamos de quem gosta de nós. Quem aprecia a beleza que nós vemos e sentimos, todos os dias sempre que saímos de casa.
Somos trabalhadores, mesmo nas condições difíceis. Somos teimosia e orgulho.
Somos campo e somos cidade.
Somos todos sotaques diferentes. Ah como gosto do sotaque algarvio!
Somos algaraviadas, almariados e marafades!
O Algarve também tem os seus defeitos, qual é o lugar perfeito?
Nenhum.
Mas a minha casa será sempre esta.
Os resorts, o cimento, os empreendimentos. Há em todo o lado mas só quem não sai dessa bolha é que não chega a conhecer o verdadeiro Algarve. As gentes, os lugares que não vêm nos roteiros, a sua essência!

Não nasci cá, nem sequer em Portugal. Mas cresci cá, cresci no Algarve. É a minha identidade. Sou Algarvia com cada vez mais orgulho!
Quando me perguntam de onde sou responderei sempre: (primeiro) Algarve, (depois) Portugal.

E não estou a dizer com isto que somos melhores ou piores que o resto do país. Não. Somos nós, Algarvios, nem mais nem menos que os outros.
Apesar de tudo, amo Portugal. A sua riqueza de gentes, lugares e saberes fascina-me e surpreende-me sempre.

Mas serei sempre Algarve.
O cheiro a mar, aroma da serra.

E quem por cá se apaixona e aprecia, terá sempre um convite para voltar, terá o seu lugar na mesa, fará parte do que é o Algarve.

Enquanto tivermos orgulho no que somos, paixão pelo que temos e interesse pela nossa casa, será sempre cuidada, melhorada e enriquecida.
E no nosso coração, seremos sempre Algarve, seja onde for que estivermos.