Nunca gostaste que eu fosse ordinária. E eu sempre detestei que fosses lamechas.
Ignoramos essa parte um do outro para abraçarmos todo o resto, achávamos que todo o resto valia a pena, todo o resto seria muito melhor.
Mas tu continuavas a querer que eu fosse outra coisa e eu continuava a achar que eras outra coisa.
E quando achávamos que podíamos ser indiferentes abríamos ainda mais o precipício entre nós.
Tu querias fazer amor comigo e eu queria um homem que me fodesse. Que me quisesse nua e crua, já, agora! Que não pudesse esperar para me ter e para meter.
Tu querias uma dança coordenada, um ballet entre dois, querias saborear e amar. Eu queria o caos, corpos suados, dor, prazer, raiva, paixão!
Amar…isso do amor é durante dia. É durante a luz. O amor é tudo aquilo que fazemos um com o outro e um para o outro. E eu precisava da noite e também precisava que me acompanhasses, mas tu davas-me a mão e puxavas-me para ti. “Não entres aí” – dizias. E eu ficava para o amor mas tu nunca para a paixão. Eu precisava que me fodesses. E tu nunca percebeste que foder era também uma forma de amar. Queria perder-me completamente no teu corpo, no prazer, na tua pele, no êxtase. Mas tu… tinhas medo de te perder na noite ou em mim (ou em ti). Não confiaste em mim o suficiente para que te levasse e ficaste.
Eu preciso que me mordas o lábio tanto quanto me digas que me amas ao ouvido. Eu preciso que me arranhes a pele tanto quanto me acaricias o cabelo. Eu preciso que entres em mim vigorosamente tanto quanto me abraças com ternura. Mas tu não. E quando deixamos de fazer amor, deixou de haver amor pois já não havia qualquer tipo de entrega. E aí o abismo aprofundou abruptamente. Tu precisavas que te amasse delicadamente. Que trocássemos juras eternas, que te acarinhasse e controlasse a tesão. Tu não querias abdicar do espaço do amor e deixar entrar a paixão. Tu não querias perder o controlo. Tudo era romantizado, adocicado, coreografado.
Fomos indiferentes até que as diferenças nos afastaram.
Para que me amasses completamente terias de abraçar o teu demónio interior, só assim conseguirias entender o meu.
Faltava-te uma parte que eu não poderia preencher.
Faltava-me uma parte que tu não poderias preencher.
E mesmo tendo sido muito não fomos tudo.
E assim ficamos incompletos.
Eu na noite e tu no dia.






