Eu e tu. Nada

Terei sempre medo quando me dizes olá.

Há anos que não te vejo, ouço a tua voz ou leio as tuas palavras, não passavas de uma memória longínqua. E de repente ao virar da esquina lá estavas tu. Irritei-me de verdade com o destino, com o timing, contigo!! Porque tinhas de estar ali? Visito Lisboa tão poucas vezes e logo agora a teoria das probabilidades esteve contra mim, o karma, o fado, chama-lhe o que quiseres! Numa imensidão de lugares – e olha que em todos imaginei a tua presença! – tinha de ser neste onde não te esperava.

Numa fracção de segundos pensei em mil cenários e engenhei a minha silenciosa fuga. Mas as forças do universo, a linha condutora, a sina, dá-lhe o nome que achares melhor, quis que tu deitasses o fumo do cigarro na minha direcção.

E lá estava eu parada, gelada, imóvel a olhar para ti com pânico no olhar, foi quando tu sorriste e cruzaste o olhar comigo.

Terá sido este o propósito desse cigarro? Que te fez sair de onde estavas no exacto momento em que eu cruzei a estrada, em que acendeste o cigarro calma e lentamente e eu virei a esquina e tu expiraste o fumo pesado e olhaste na minha direcção e eu na tua.

O momento que ficou suspenso.

E ainda por cima sorriste e eu sei porquê, conseguiste perceber o pânico nos meus olhos, foi isso que me irritou ainda mais. Depois de tanto tempo e mesmo sem trocar palavras consegues ler-me, ainda, facilmente.

Eu continuei imóvel, já não podia fingir que não te tinha visto, voltar atrás, apagar aqueles segundos, tomar a outra esquina – já não tinha escolha. Fitei o chão desconcertada e tu caminhaste na minha direcção. A cada passo que davas o meu coração apertava de dor. A cada passo que davas eu sentia medo, alegria, mágoa, paixão, tristeza e de repente parecia que estava a acordar de um sono profundo mas nada sereno. Nada mesmo. Era um acordar extremamente doloroso. E eu não queria mas queria tanto.

Disseste olá e eu… Eu desmoronei por completo por dentro. Tentei manter a postura, tentei não o mostrar… Os pedaços que tu deixaste partidos, quebrados, rachados, facturados da minha alma. Aqueles que te recusaste a colocar de volta, seria impossível de qualquer modo, não haveria super cola no mundo que me deixasse completa.

Só, talvez, o teu amor – mas não, nem isso.

Eu retorqui “Olá” e a minha voz tremeu, não consegui sorrir-te. Tu pegaste na minha mão e ficamos ali, naquela esquina, juntos mas afastados. Em silêncio, em segredo. Na surdina dos ecos do passado, do que fomos, do que sentimos e do que tivemos. E o que nos unia agora era apenas a fatalidade daquele momento em que chocamos um com o outro e fomos tudo o que fomos e somos o nada que somos.

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Sem mim.

Preciso de falar contigo, consegues ouvir-me? Sim? Ah…

Só queria saber se para ti foi tudo um jogo? Se eu fui uma apenas uma conquista ou até uma mera distracção… Se os teus beijos eram teatro e as tuas juras de amor uma manipulação. Se o meu coração apenas te serviu de entreposto enquanto estavas de passagem.

Estou? Estás a ouvir-me?

Devias ter escolhido o silêncio em vez de dizeres que me amavas, tal como o estás a escolher agora. Não tens resposta ou não queres responder?

Quantas vezes me quis ir embora e tu não deixaste disseste que precisavas de mim. Agora percebo, precisavas de mim para construíres o teu mundo fantasioso paralelo à tua realidade. Mas a tua ilusão era a minha realidade, sabias?

Agora olho-te de longe e nem sei quem és. Fui eu que sonhei ou tu que imaginaste?

Que pessoas fomos nós? Altamente indiferentes ao mundo lá fora… Eu não era eu e tu nem sei, foste alguém que não tu e de repente deixaste de existir. E eu também. Quando deixaste de existir deixei de ser a mesma pessoa e o amor já não era a mesma coisa. A paixão via-me com outros olhos. Deixei de sentir até tudo ficar dormente até deixar de sentir toda a dor e mágoa que restou quando detonaste a minha realidade e abandonaste a tua ilusão. Quando viraste as costas, sorriste, desapareceste, sem rasto, sem memória, sem…mim.