A Chuva Cai Lá Fora

Silver Skinby tpphotography @Deviantart.com

A chuva cai lá fora.
O calor dos nossos corpos agita-se debaixo das mantas. A tua pele na minha pele que é tua. Desvendamos os milimetros desta paixão que se revela. A cada silêncio, a cada sorriso, a cada abraço sinto-me mais perto de ti, mais perto de mim.
Como se o vazio sempre tivesse existido com um propósito, para tu o preencheres. Como se cada passo tivesse sido guiado até chegar a este momento. O momento em que tu me olhas e me levas, como uma onda num mar revoltado, numa corrente sem destino aparente. E eu deixo-me levar porque sei que contigo estou segura.
E sigo pela tua mão de olhos vendados porque não preciso ver, apenas preciso sentir. O desejo que nos envolve, a entrega que nos abraça, a ternura que nos aproxima.
Não será preciso perguntar porquê. Não será preciso saber como.  Não me interessam todas as explicações do universo, agora, neste momento, a chuva cai lá fora, tu és meu e eu sou tua.
Absolutamente rendidos à deriva pela paixão.

Anúncios

Identidade em Construção

Pôr do Sol na Ilha da Armona
Pôr-do-Sol na Ilha da Armona

À medida que me vou aproximando dos 30 (anos de vida) começo a perceber e a aperceber-me de certas coisas, pensamentos e respostas a questões que sempre tinha mas que nunca as conseguia desvendar.
Saindo dos vinte começo a ter a verdadeira noção de que a vida tem inicio, meio e fim.

Até aos 25 ou 26 parecia que era imparável e o futuro sempre me parecia tão longínquo. O passado demasiado curto para ter de olhar para trás. E vivia sempre num infinito presente. Não é mau, mas não olhar para trás significa não reconhecer aquilo que se fez e que foi feito e as lições aprendidas. Não olhar para o futuro significa não ambicionar, não querer mais, não lutar pelo que se deseja, não crescer.
Viver no presente não é mau até é uma boa filosofia. Não deixar nada passar impunemente, viver o momento, aproveitar o que nos é proporcionado. Mas viver demasiado no presente num constante estado de “venha o que vier” também não é auspicioso.

Ao chegar perto dos trinta sinto que já tenho alguma bagagem que me acompanha. E ao olhar para trás percebo como mudei e tenho completa noção que muitas perguntas e questões continuam sem ser respondidas. Mas também sei que o futuro trará essas respostas. Quando tiver maturidade para as compreender, interiorizar e valorizar. Quando crescer mais um pouquinho emocionalmente.

Cada bagagem que se junta ao passado corresponde a uma questão respondida no presente e a uma nova busca para o futuro.

Uma das coisas com que me deparei recentemente foi em relação ao sentimento de pertença, à identidade. Não sei como lhe chamar, sou leiga nesse departamento. Não me refiro a esta identidade com a minha essência.
Sempre tive a sensação de pertencer a todo o lado e não pertencer a lado nenhum. Nasci na Venezuela, um país que pouco ou nada conheço, ao qual nunca voltei, cujas tradições, cultura ou história não me foram transmitidas pelos meus pais ou a minha família.  Cresci em Portugal, os meus pais são Portugueses e eu considero-me Portuguesa. Hoje.
Porque antes também não tinha esta sensação de pertença, este gosto pelo meu país. Sentia-me deslocada, talvez por nunca ter a experiencia do passar a tradição, os ensinamentos da família. O meu núcleo familiar sempre foi muito disperso e daí eu sempre me sentir assim: dispersa. Sem identidade.

Mas hoje sinto-me Portuguesa.
E mais do que ser Portuguesa sou Algarvia. Cresci no Algarve. Vivi o Algarve. E ainda vivo.
Ainda não viajei muito, mas o pouco que o fiz fez-me apreciar cada vez mais o país que me acolheu e me deu a minha nacionalidade.
E hoje olho para trás e sinto que já não existe aquela sensação de dispersão, pelo menos no departamento geográfico. Tenho a cultura algarvia e algumas das suas tradições absolutamente entranhadas naquilo que sou EU.
Fazem parte da minha identidade. Aquilo com que me identifico.
E apesar de haver algumas peças perdidas neste puzzle difícil de montar, acredito que com o tempo, as experiências, a vida, vou construindo a minha identidade. E aos poucos vou chegando mais perto de estar em total consonância e compreensão do que é o meu EU.
E cada vez que me perguntarem que és tu vou sabendo mais e mais identificar quem sou eu.

A vida, as pessoas que fazem parte da minha vida, vão espelhando quem sou eu. E eu aos poucos e poucos vou me reconhecendo cada vez mais e cada vez melhor. E à medida que vou respondendo a algumas das minhas questões internas vou abrindo espaço para mais. Para nunca estagnar. Para sempre crescer. Para sempre juntar mais e mais peças ao puzzle da minha identidade.

E há 1 ou 2 anos atrás não seria capaz de compreender isto desta maneira.
Crescer e aperceber-me de deste crescimento é simplesmente fantástico.
Faz-me perceber que não estou assim tão estagnada quanto por vezes me sinto.