Ela não era o tipo de rapariga que combinava a roupa interior. Quando saía desajeitadamente do duche pegava no primeiro par de soutien e cuecas que lhe vinham à mão. A sua lingerie provavelmente não entrava na categoria de lingerie. A sua roupa interior, termos mais adequados, era confortável nunca deixando de ser bonita. Tinha algumas peças mais sexys, que a faziam sentir especial quando as vestia, mas sem nunca abdicar de se sentir bem.
Assim era ela. Desajeitada, confortável, bonita, fazia qualquer um se sentir bem.
Vestia-se igual a si mesma.
Ela tinha um perfume de baunilha que colocava todos os dias, sem falhar. Ela na brincadeira chamava-o de “A sua essência”. E na verdade quando ela passava já a reconheciam pelo aroma de baunilha que delicadamente ficava a pairar no ar, a dançar com os sentidos. E a sua essência envolvia-a docemente num sonho doce de desejo e luxuria e ela gostava dessa sensação. Nunca abdicava do seu perfume de baunilha.
Antes de sair de casa fazia sempre uma festinha ao seu gato, despedia-se dele num gesto, talvez um pouco macabro, de que se aquele fosse o seu último dia pelo menos ele saberia que foi amado até ao último segundo. Sorria e saía.
Para ela o conceito de viver apaixonadamente parecia-lhe algo tão abstracto, nunca percebeu bem o que aquilo significava. Para ela seria talvez o facto de viver sem arrependimentos, sair de casa de manhã e sorrir, caminhar para o trabalho com os phones nos ouvidos a ouvir as suas músicas favoritas.
Passar pelas pessoas, observar como se sentam e conversam, como se riem ou como se zangam. Para ela talvez fosse isso, não perder um segundo e ter a certeza de que se aquele fosse o seu último segundo, todos saberiam que foram absolutamente amados por ela.
E seguia a sua rotina interminável. Duche, roupa, sapatos, adeus ao gato, caminhar a sorrir, trabalho.
As horas no trabalho sempre lhe pareciam escassas e ao mesmo tempo intermináveis. Ás vezes sentia que havia tanto mundo lá fora para conhecer e que iria morrer parva naquele escritório em nome das regras da sobrevivência. As horas que gastava na sua vida em nome do “precisar dinheiro para viver”.
“Será?” – perguntava-se – “Será mesmo isso que precisamos para viver?”
Ela precisava do cheiro a mar para viver. Ela precisava de amor e de paixão para viver. Ela precisava profundamente das pessoas para viver.
Outras vezes sentia que todo o tempo era pouco, via o tempo no seu trabalho como um investimento que lhe permitiria um retorno com o qual poderia viver as mais variadas peripécias e aventuras.
E mais um dia passava e ela saía com um sorriso.
Adorava conduzir com a música alta e os vidros abertos. Dançava com os dedos no volante ao som da melodia que o rádio lhe oferecia. E cantava alto. Por vezes ria-se de si mesma, o que diriam se a vissem? E sorria. Talvez pensassem: “lá vai aquela rapariga feliz!” E ela até se sentia feliz! Pelo menos na maior parte das vezes.
Adorava estar com os amigos ao final do dia, numa qualquer esplanada com uma qualquer bebida na mão e uma mesa cheia de petiscos.
Haverá algo melhor que uma mesa cheia? Cheia de amigos, cheia de comida, cheia de amor!
E quando já era de noite e fazia o caminho de volta para casa pensava o quão sortuda se sentia por ter dias assim. Com minutos cheios de coisas boas. Não precisava de mais, ela tinha tudo o que poderia querer: amor, amizade, carinho e os prazeres simples da vida.
Quando rodava a chave já ouvia o seu gato a miar, talvez lhe estivesse a perguntar onde esteve todo o dia ou a exclamar o quanto sentira a sua falta ou estaria apenas a exigir comida. Ela fazia-lhe festinhas e olhava profundamente para ele, pensando para si mesma “mais um dia, estou aqui”. E sorria.
