Incenso

Chegas e atiças-me fogo com a tua chama. Entro em combustão de dentro para fora e de fora para dentro. És a minha pele, estás na minha pele que queima violentamente, descontroladamente.
Deixas-me assim a consumir-me pelo teu fogo, lentamente, como um incenso que vai dissipando a sua essência.
É assim que me queres? Consumida por ti, febril, na brasa lenta da tua tesão.
Consegues sentir? Porque eu sinto-te a entrar em cada poro, cada milímetro do meu corpo responde a ti. Submete-se a ti. Consome-se por ti. Espera por ti. Pacientemente, ansiosamente.

Apaixonadamente.

 

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O ciclo vicioso do vazio.

Estranha forma de sentir – esta incompletude, este vazio, esta falta de qualquer coisa que me impulsiona a estar sempre à procura de algo que não sei o que é, não sei onde está.

Por fora os parâmetros quotidianos são o que me fazem circular por mais um dia. A rotina, o trabalho, o sorriso mecânico, a empatia robótica.

Mas por dentro não há nada. Não sinto, este vazio deixa-me sonâmbula, dormente. Sempre esta incessante procura por mais, pelo tudo!

E quando penso que encontro volto a cair neste vórtex do nada. Arrasta tudo para ele. Perco tudo em mim. A conquista do nada é aquilo que tenho para mostrar.

Nem sei porque choro, já nem sinto a tristeza. Talvez seja pelo desespero gritante do nada.

E vou caminhando pelas sombras, perdida, sozinha, abandonada. E as sombras falam comigo, ouço e tento não escutar. Mas não consigo. Elas puxam-me. Elas dizem para parar de lutar contra o falhanço que é tentar sair do vazio.

Não te iludas – suspiram elas.

Agora dorme… O amanhã será mais um dia de vácuo, horas inóquas, palavras indiferentes, sorrisos mecânicos e a tua alma presa do outro lado – deste lado – no ciclo vicioso do vazio.