O Conto IV – “Tudo e Nada”

Ela tinha um vestido de Verão amarelo, que se desabotoava pela frente. Era leve, alegre e cheirava baunilha. Quando entrou no carro estava ansiosa, não sabia o que dizer, beijou-o com saudade mas reticente. A viagem foi silenciosa, linearmente dolorosa, o tempo tem a capacidade de mover montanhas de insegurança. Quando entraram no quarto do hotel sentiu-se constrangida, ali estava ela com aquele homem com quem tinha partilhado as sombras da sua alma e ao mesmo tempo desconhecia. E sentia um constrangimento ensurdecedor. Parecia que tudo o que haviam sentido e partilhado começava a cair num nada. Um nada que lhe sugava toda a vida e a consumia de medo. Medo desse vazio que se expunha entre eles cada vez que partilhavam a paixão que sentiam. Porque ela sentia que havia tudo entre eles e sentia que nada podia fazer quanto ao futuro incerto do nada. Ela sabia que era aquilo, que era ele, mas não sabia como.
É como se resultasse num universo paralelo, algures numa outra realidade eles ficariam juntos ela mudaria a sua vida por ele e ele faria parte dela. Mas neste universo, nesta realidade ela apenas conseguia ver nada. E isso assustava-a. Um dia até tinha tido coragem de o questionar cerrando os olhos antes de obter a resposta, mas ele nunca soube dizer ou ela nunca soube ouvir. Provavelmente ele não compreendia a insegurança dela ou talvez nem percebesse que existisse. Talvez para ele aquela realidade era o universo paralelo que ela ansiava, em que ele mudaria a sua vida por ela e ficariam juntos.
Para ele seria tão óbvio que ficariam juntos que não havia mais nada a dizer.

Enquanto olhava para ele a pousar as malas mil coisas lhe passaram pela cabeça. Talvez seria melhor parar e tentar perceber o que seria dali em diante. Ou talvez não. Talvez seria melhor aproveitar os momentos efémeros que por sorte conseguiam ter juntos. Talvez fosse melhor não saber.
Toda aquela sala cheirava a despedida e ela quase que se sentia desesperada e ao mesmo tempo aliviada. E quando ele a beijou fervorosamente ela conformou-se e disse a si mesma que uma paixão tão perigosa não obedeceria a leis ou regras. Simplesmente existia enquanto podia e depois desaparecia para sempre deixando para trás as suas vítimas.
Ele beijava-a no pescoço enquanto sentia o seu aroma a baunilha, encostou-a contra a parede e disse-lhe ao ouvido: “não aguentava mais estar longe de ti”. Ela estremeceu e sentiu-se quase a entrar em transe. Aquela paixão era avassaladora, o corpo dela entrava em choque quando estava junto a ele. Esqueceu naquele momento toda a razão e raciocínio, seguiu apenas o seu instinto carnal. Ele desabotoava-lhe o vestido botão a botão. Ela quase sentia dor de tanto desejo.
Quando chegou às coxas beijava-a ternamente, cada vez mais perto da sua cueca de renda. Ela ficava com a respiração pesada e ritmada como uma leoa prestes a atacar. Puxou-lhe os cabelos e fê-lo subir até o olhar nos olhos, tomou controlo e ele deu-lhe o controlo.
Levou-o até ao sofá onde o despiu furiosamente, transformou todas as suas dúvidas e medos em desejo carnal. Fez-lhe sexo oral com intensidade tamanha que ele mal se conseguia controlar. Ela sentia o seu pénis a contrair-se na sua boca e dar-lhe esse prazer fazia-a sentir muito prazer. Ele geme a palavra não e repete cada vez mais alto. Agarra nela e reclama o controlo de volta. Ela deixa-se levar por ele e senta-se em cima dele. O seu pénis invade-a de prazer e ela já o ansiava dentro de si desde que chegou perto dele. É esta química incontrolável que têm que ela não consegue explicar ou perceber.
É tão bom que é tão mau.
Atingem o orgasmo juntos, ela morde o pescoço dele e ele empurra-a. Sorriem um para o outro e olham-se profundamente enquanto os seus sexos palpitam de êxtase.
Ele abraça-a e passa a mão pelos seus cabelos, ao ouvido diz palavras de saudade e de amor. Naquele momento ela sente-se transportada para aquele universo paralelo onde nada é possível.
Respira fundo e saboreia.

O nada transforma-se temporariamente em tudo quando está junto a ele.

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Hot Cup of Emptyness

 

Costumava chegar a casa, vestia o robe quente e enrolava-se no sofá com uma chávena de chá. Nunca ligava a televisão ou o rádio. Abria sempre uma brecha da janela, mesmo que estivesse frio, para poder ouvir os sons da rua. As vozes longíquas, os carros a passar, o som da chuva. E ficava na sala sala pouco iluminada a ouvir e a pensar. A pensar no quanto ainda sentia falta dele e se isso era sequer possível passado tanto tempo. ÁS vezes pensava que já não era saudade a sério, era o corpo que sentia falta de sentir falta e agarrava-se aos últimos resquicios de sentir. Há muito tempo que já não sentia. E quando pensava nele já não era com aquele aperto, apenas respirava fundo, por se sentir a afogar no nada.
Tentava esquecê-lo mas o seu corpo não a deixava e a sua mente insistia em relembrar o quanto ainda o amava e odiava nos seu sonhos.
E ficava sentada no silêncio mas numa guerra interna e insana, não sabia estar no nada mas não conseguia sair dele, portanto bebia o seu chá quente e tentava esquecer…depois vestia-se e saía de casa e no bar mais próximo tentava voltar a sentir algo com alguém diferente, mas não conseguia. Quando ele saiu deixou-a vazia. Saiu sem nada dizer, nem ela percebeu, roubou-a, deixou-a e desapareceu. Ficou ela, a casca do seu ser, sem nada. Sem amor, sem emoções, dormente, silenciosa. Vazia.