Folha em Branco

A frustração que me pesa os ombros por não conseguir dizer em palavras aquilo que não sinto. Pois nada sinto. A não ser que não sentir seja considerada uma nova forma de sentir. A não ser que a não-dor e a não-mágoa sejam novas formas de sentir aquilo que não sinto.

A inexistência de sangue a pulsar dentro de mim faz com que sirva palavras frias à mesa e me arraste sonâmbula pela sala. Esta não-vida de não-sentir, de não-chorar, de não-escrever que me deixa em branco e não-editável.

Vivo uma não-vida que me faz não-sentir as despedidas, as faltas, as ausências, os erros. Talvez seja bom não sentir a dureza das palavras. Ou talvez tenha sido a dureza das palavras que me rasgou por dentro e me fez não sentir.

A dureza dos gestos.

As feridas que rasgam nervos, partem, quebram e me empurram para um coma de emoções. Por ter havido uma não-cura.

Por ter enveredado por uma não-saída. A não-vida. A de não-sentir para não sofrer.

Anúncios