Lua,
Inconstante que és, vestida de prata
todas as noites o teu brilho se insurge na escuridão.
Revelas nas noites mais escuras as bestas que habitam o negrume da minha alma,
Mostras o quão poderosa é a tua luz que se reflecte no meu olhar vazio.
Lua,
És tu que governas as marés deste mundo,
os oceanos estão a teus pés, vão e voltam, com toda a sua fúria e paz.
São teus escravos e tu brilhas impune do alto desse céu enquanto denuncias
contra minha vontade,
a lágrima que me humedece o rosto e cai na terra seca.
Tu que vês o tempo ser tempo,
os cacos da vida,
as histórias perdidas de amores que secaram,
és a Lua inalterada que me cobre com seu véu branco e me faz sonhar e querer tocar as estrelas.
Mas Lua, porque me maltratas? Se olho para ti com esperança e tudo o que vejo foi o amor que morreu nos teus braços?
Lua,
trás-me de volta a fúria da paixão que iluminava cada canto da minha existência,
leva contigo este vazio de Lua nova.
Que todas as noites sejam cheias de marés vivas.
Antes isso que este silêncio,
este vácuo que sou eu,
enquanto te olho de rosto molhado com a alma consumida por este animal que é a tristeza.
Mês: Junho 2010
Ainda
A ti deixo-te a vontade de não esquecer.
Tu que partiste abruptamente deixo-te a vontade de lembrar e relembrar todos os momentos vividos, conseguidos e roubados. Deixo-te todas as emoções contidas em palavras ditas ou escritas.
Deixo a ti a inocência de um sentimento puro e a indecência da razão, o aroma a sal e a areia, os lençóis brancos e a janela aberta. O tempo partilhado e esgotado. Os momentos de filme que existiram num tempo suspenso.
A despedida sentida quando olhei para trás e soube que seria a ultima. As lágrimas, os sorrisos, as gargalhadas.
A ansiedade de um encontro. A tristeza da impossibilidade. Deixo aqui a tentativa para esquecer tudo isso, que me ficou marcado na carne. Que me ficaste marcado na alma. Que me ficou cicatrizado no coração. Que não cura, não fecha, não sara – a memória que não morre nunca – por mais que a sufoque.