Todos os dias acordo de manhã, faço os mesmos gestos quando faço a limpeza da pele, os mesmo movimentos quando escovo os dentes, quando esfrego o cabelo e o seco também.
Todos os dias de manhã saio de rompante com parte do pequeno almoço no estômago mastigado á pressa e o restante na mão e como pelo caminho.
Sempre que saio do prédio páro por um segundo e inspiro fundo. Sinto a brisa ou a falta dela e mentalmente faço um prognóstico para o dia.
Tomo sempre o mesmo caminho e é sempre naquele cruzamento, em que espero que o sinal fique verde, que penso que deveria seguir um caminho diferente. Olho para a estrada até onde a vista alcança traçando a rota mentalmente e uma série de factores passam pela minha mente. Todos os dias penso “Hoje não, quando tiver tempo.”
Pelo caminho que sigo religiosamente encontro, todos os dias, a mesma senhora que se apressa a abrir o blockbuster da esquina. “Parece ser bom” – penso sempre que espreito para dentro enquanto a grade abre – “Um dia tenho de me inscrever”.
Quase na recta final do meu destino, todos os dias, compro o jornal e todos os dias a mesma cara sorridente me diz “É 1€”, excepto aos fins de semana claro. Sigo com o jornal de eleição debaixo do braço, o i.
E assim chego todos os dias ao mesmo destino, o trabalho, em que apesar de ser sempre diferente na sua essência é sempre igual, todos os dias.
Hoje na pausa de sempre para o café (descafeinado) o pacote de açúcar diz-me “Está na hora de mudar. Hoje é o dia.” Sorrio e penso: “Talvez comece por virar noutra rua, naquele cruzamento, onde olho sempre o caminho diferente que poderia tomar.“