Sentada na mesa do canto da sala espero o tempo avançar para que possa mais logo ser aquela sentada no canto de uma sala, de um outro lugar.
Os velhotes juntam-se em grupo neste lugar, partilham refeições, conversas, companhia e sobretudo o tempo. Assim como eu, esperam numa consciência silênciosa o tempo avançar.
Na mesa de trás, três crianças sentadas preparam-se para a refeição, esses são imunes ao tempo. Ainda não o sentem estão protegidos num mundo longe desta nossa realidade governada pela ditadura das horas. As senhoras de cabelos brancos conversam infinitamente, existe uma imensidão de vida vivida para dizer.
Ao fundo os pratos e talheres rasgam-nos com o seu barulho estridente, a menina que os recolhe também ela está à espera que o tempo avance para que possa sair dali. A música de fundo por vezes pára e dá lugar a uma voz de mulher, talvez indiferente ao que está a dizer, as promoções e claro as horas. São horas de fechar.
Levanto-me e olho o relógio, esse gesto maldito que se entranhou no meu corpo. Muitas das vezes olho sem ver, é apenas o gesto que se repete. “Já são horas” ou “Ainda falta” e “É agora”. É o tempo, o tic-tac dos ponteiros, que me ensurdece e me cega. Pensamos demasiado no tempo e nisso deixamo-lo inevitavelmente passar sem realmente o viver.

Só hoje é que reparei que a 8 de Agosto este espaço fez 2 anos de aniversário. Dois anos. Parece tanto e ao mesmo tempo infinitamente pouco tempo. Tudo aconteceu, tanto aconteceu que parece que tudo se deu num espaço de tempo muito, muito maior!