Livro de Reclamações

Há os Complicados e os Simples

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Sou uma pessoa complicada, se é que essa definição alguma vez faça sentido. Não sei se haverá mesmo pessoas simples ou pessoas complicadas, mas existe a ideia de que esse tipo de pessoas existem.
Sou então aquilo a que chamam: uma pessoa complicada.
Por vezes reajo com indiferença a tal afirmação e por outras vezes algo dentro de mim ferve muito veemente, com revolta, angústia, desespero.
“És calada, reservada, discreta, não tomas a iniciativa.” – disse em tom perjurativo . “Enfim, és assim, mas que poderei fazer?” – como se de uma doença incurável se tratasse, algo que vem no pacote mas que não se quer e que se tem de levar à força, sem escolha. Talvez não seja uma pessoa fácil. Não comunico fluentemente, não sei falar com as pessoas, tenho dificuldades em perceber conversas de ocasião. Não me ensinaram a expressão por palavras com sons. Não me ensinaram a expressão por gestos e acções.

Ensinaram-me o silêncio, a distância. Aprendi-os como defesa e como ataque.

“Talvez te consiga mudar.” é a frase que me deixa em fúria. Ninguém muda ninguém, seja porque motivo for. Simplesmente ensinamos ao outro comportamentos, acções, atitudes, que o outro adopta (consciente ou inconscientemente) e então com esse novo conhecimento modela-se, adapta-se, transforma-se, mas mantém a sua essência (no fundo). Numa situação de defesa (ou ataque!) voltamos ao que somos na nossa essência e o que aprendemos de novo perde-se e terá de ser novamente resgatado. Eu tenho (alguma) noção do que sou. Sei as minhas dificuldades e limitações, sei também que as tenho de ultrapassar e para isso vou aprendendo a faze-lo com quem realmente me aceite na minha essência. Complicada ou não existirá sempre alguém com uma maneira simples de me perceber e principalmente de me ver. E mais importante do que saber as minhas dificuldades e limitações, sei quais são as minhas forças e virtudes, é curioso que essas sejam raramente realçadas. Mas isso é toda uma outra conversa.

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