Uma carta de amor

Há momentos que sinto que preciso do som das ondas, do cheiro a mar, de sentir a areia molhada e fresca nos pés descalços. Não conseguiria viver longe do mar.

Cresci relativamente perto do mar e agora vivo ainda mais perto dele! É um luxo estar em casa e sentir o cheiro da maresia. É um luxo poder sair e dali a uns metros ter a maravilhosa Ria Formosa a cintilar, apanho um barco e mais à frente estou num sítio paradisíaco, praticamente à porta de casa. Sou uma afortunada!

Apesar de tudo amo viver no meu Algarve e tenho um carinho imenso pela terra que me acolheu. Sou Algarvia antes de ser Portuguesa. Tenho alguma ligação à cultura do país que me viu nascer, muito devido à minha família, que foram portugueses emigrados na Venezuela e aconteceu nascer por lá. Mas o Algarve é onde vivo desde que me conheço como gente e é esta região que faz parte da minha identidade! Nota-se na maneira como falo (algarvio marafade), na maneira como como, na maneira como convivo e nesta ligação tão especial que tenho com o mar.

Das memórias mais queridas que tenho de infância são ligadas ao mar e à praia, praticamente cresci à beira mar!

Sou de uma altura em que os ATLs, amas, campos de férias e coisas do género eram coqueluches para quem podia dispender desse dinheiro, mas no caso da minha mãe, uma mulher divorciada a cuidar de 2 (mais tarde 3) filhos praticamente sozinha não era de todo uma opção.

Ficava na casa da minha avó e com muito gosto. A minha avó era uma senhora muito especial, sempre pronta para aventuras e foi assim até ao fim dos seus dias. Nas férias do verão íamos todos os dias para a praia, penso que só falhava se tivesse mau tempo ou por motivo de força maior. Lá ia eu com a minha avó de cesta na mão, toalha ao ombro e sombrinha em punho. Por vezes ia connosco uma ou outra amiga dela ou minha. Mais tarde a minha prima também começou a acompanhar-nos.

Passavamos o dia inteiro na praia e eu passava o dia inteiro dentro de água. Acho que só saía quando estava em pré-hipotermia, com os lábios roxos e a pele toda enrugada.

A minha avó sempre confiou em mim, eu adorava isso. Eu ia para o mar e não precisava que ela fosse comigo, sentia-me sempre segura porque sabia que ela estaria ali vigilante e sentia-me confiante porque sabia que ela confiava o suficiente em mim para me deixar aventurar sozinha e tomar as minhas próprias decisões. Acho que acabou por ser assim nos restantes aspectos da minha vida. Sempre senti o apoio dela, mesmo que indirecto ou nas entrelinhas, e no meio das inseguranças da vida sabia que no fundo seria capaz de tomar as rédeas das minhas decisões e enfrentar a vida de frente, assim como fazia quando em miúda enfrentava o mar sozinha.

Sem dúvida que as melhores memórias que tenho da minha avó estão associadas ao mar e à praia e sou grata por isso! Aquele caminho entre Loulé e Quarteira, de janelas abertas, no seu Mazda vermelho, com os estofos em pelúcia com padrão de dálmata (incríveis!!) sempre com a rádio a tocar de fundo, a antecipação ia crescendo, quando ali mais ou menos a meio caminho, o cheiro a campo começava gradualmente a dar lugar ao aroma do mar denunciando a chegada, em breve, à praia do Loulé Velho, das mais frequentadas por nós – só de pensar faz o meu coração sorrir mais um pouco. Sou grata por todos esses momentos, que considero serem parte de uma infância de luxo! Luxo no sentido não-material, mas no sentido de ter tido experiências tão felizes e memórias tão boas, que felizmente vieram a contrabalançar com o menos bom e os momentos mais difíceis.

Por isso acredito sim, viver no Algarve é bom, é um luxo pelo qual sou grata e sem o qual não sei se saberei viver. Se um dia sair daqui tenho a certeza que será temporário.

É um luxo sair do trabalho e ainda poder dar um pézinho na areia, é um luxo as petiscadas com amigos à beira mar (ou à beira ria). É um luxo logo aqui ao lado a Serra do Caldeirão ter tantos paraísos escondidos. É um luxo o facto de andar 30 minutos de barco e poder estar numa ilha paradisíaca. E amo isso. Amo poder chegar na praia, seja inverno ou verão, por os pés descalços na areia, respirar fundo, centrar a mente e contemplar o quão incrível é este lugar ao qual tenho o privilégio de chamar de casa!

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Rascunhos I

Saudade da paixão que me agarra pela alma. Aquela sensação de estar à beira de um penhasco, o frio na barriga, as borboletas sabes? Quando os olhos se cruzam e tu simplesmente sabes. Aquele momento, mesmo antes dos lábios que se tocam pela primeira vez, em que a respiração praticamente sustém e, ao mesmo tempo, o coração, bate tão forte, parece que vai sair disparado do teu peito. Tudo à tua volta continua a existir mas estás parado no tempo. Olho para os teus lábios humedecidos e eu quero. E eu sei que tu me olhas alma a dentro e roupa para fora, e eu quero. Estamos os dois à beira do precipício da paixão e a decidir, numa fração de segundos, se tudo muda. Entramos em queda livre, juntos, em rota de colisão. O momento que antecede a entrega. Aquele mesmo antes dos lábios se tocarem, em que sinto a tua respiração e a minha. É esse momento. Esse mesmo, o prelúdio do desejo arrebatador.

Foto postal: Alentejo

Quando se fala em Alentejo é esta imagem que vem à cabeça planícies salpicadas por pequenos montes revestidos de um dourado quente, um prato de migas de espargos e bom vinho. Mas se nos dermos ao trabalho de descobrir o Alentejo pode ser muito mais. Os poucos dias que tenho o privilégio de lá passar são preenchidos por muito silêncio, pasmaceira (que não é necessariamente mau) boa comida e algumas sestas extra. Como tenho aversão ao calor, a altura que mais gosto de visitar é na Primavera, os campos estão verdejantes, há sempre uma neblina mágica ao amanhecer e a temperatura convida a explorar. No Verão entro em modo hibernação e só me atrevo a sair no lusco-fusco. Com internet e tv fora da equação, estes dias permitem-me viver o tempo sem distrações e como sabe bem libertar a mente!

Acho que hoje em dia é cada vez mais difícil libertar-mo-nos das distrações fáceis, que nos levam a estar sempre a procurar o que fazer no próximo minuto (e no depois e a seguir) e que inevitavelmente nos leva a ficar ansiosos e a não saber o que fazer connosco mesmos quando estamos sozinhos.

Hoje em dia estar sozinho é motivo para uma ansiedade desmedida, há um medo da solidão que nos é instilado desde cedo. Como se estar sozinho fosse uma doença terminal que só podemos evitar se ocuparmos cada minuto da nossa existência com todo o tipo de actividades, seja trabalho, horas no ginásio, horas de netflix, horas de youtube, horas de mindless browsing até dormir, voltar a acordar e repetir. Procuramos qualquer coisa que prencha os espaços, os vazios e que nos impeça de estar connosco mesmos.

Há tempo para tudo. Viver no presente ou viver intensamente não tem de ser sinónimo de estar sempre all over the place. Há que reservar algum tempo para para parar, para me centrar, para me escutar, para aprender a estar comigo. Não nos podemos evitar a nós mesmos para sempre (ou não devemos) pois chegará um dia que deixamos de reconhecer a nossa própria voz. Deixamos de saber quem somos se não estivermos com outros ou com o cérebro sempre a computar, e aí começamos a sentir o peso da solidão. Sim porque estar sozinho ou sentir-se só são coisas bem diferentes e que se podem tornar sufocantes quando o não saber estar sozinho se conjuga com sentir que ninguém se importa.

Portanto para mim estes momentos de pasmaceira, de fazer nada e escutar os meus pensamentos ajudam-me a centrar e a encontrar. Para que depois tenha a energia e força necessária para poder investir o meu tempo com as outras pessoas, no trabalho e nas distrações fáceis.

E isso é o que mais gosto quando visito o Alentejo. As distrações são forçosamente retiradas da equação. Fico só eu. Ficas só tu. E reaprendemos ou relembramos o privilégio que é sermos nós.

Words left unspoken

– Are you ok?

– Why do you ask?

– I don’t know, I feel like something’s wrong.

– Nothing’s wrong. Everything’s wrong… I feel like I’m always in some kind of emotional darkness. I can’t get over it, it’s my new normal. I think I’ve learned to accept it. This turmoil inside is not meant to be gone, it’s a part of me and I can’t do anything about it. I don’t know why I even turn to you when I’m feeling like shit in the void. I don’t need you and you make no difference in my life. You are barely there anyways.

Fuck this. I shouldn’t expect you to be. You should be where you belong, in the past. I’ve got this fantasy on my mind that we could’ve been something great. But that’s just to mask the shitty things we’ve done and the fact that we are shitty people. It was never love, it was novelty, fantasy, reckless. We end up leaning on each other prolonging this fantasy of what should’ve been. It’s bullshit.

It was nothing.

I feel nothing.

That’s why I can’t understand why the fuck I keep caring about you, why do I feel the need to keep you “around”. When in fact that just makes me feel worse.

So that’s what’s wrong.

You are right.

Something’s wrong, this is wrong.

We’re wrong.

We were wrong all along, there’s no fucking special connection. It’s just the need to feel something outside this void and you are the one closest.

This is what’s wrong, I don’t have to count on you or need you to be there. That’s messed up. We shouldn’t even be speaking.

We’re toxic to each other and yet we tell this tale that we are kindred spirits in order to maintain this sick connection. You were a good challenge, I’ll give you that. A relationship between us would’ve never work. It would never be possible. You’ve never seen me as I am. You projected this fantasy onto me and I just went along with it. It was nice. The sex wasn’t that good. Sorry, I don’t mean to hurt you, it’s just that doing this makes no fucking sense.

And yet…here we are.

Chegar a ti

Estou a correr num só fôlego e não sei para onde vou. Só sei que estou a correr. Não estou a correr de nada mas sei que estou a correr para algo. Todo o ar que entra nos meus pulmões se esvai em passadas contínuas. Quero chegar mas não vejo o destino por isso continuo, sem parar. O meu coração quase que explode no meu peito. Coração que contrai e bombeia, abre válvula, fecha válvula, empurra o vermelho sangue por todo o meu corpo. Passada a passada estou a correr e só sei que é para ti. Olho em volta sem nunca abrandar, vejo a vida que passa por mim de rompante e eu que passo por ela ofegante, continuo a correr enquanto te procuro, não sei onde estou mas continuo a correr.

Para ti.

Não quero chegar tarde demais, um segundo e tu já viraste as costas, não desisto e cerro os punhos. Todo o corpo me dói mas eu preciso…

Eu preciso de chegar a ti.

Aguenta mais um pouco nesse penhasco não te deixes levar pela brisa, continua a contemplar a paisagem, não olhes para baixo, olhos em frente no horizonte, respira fundo, estou a ir. Coração na mão, de olhos molhados, as lágrimas escorrem mas eu luto. Só vou parar quando chegar a ti. Diz-me onde estás, chama o meu nome, deixa-me ouvir a tua voz. Chama por mim. Chama por mim!

Eu ouço-te e corro até ti.

Já vejo os teus olhos ao longe, brilham com a luz vermelha do pôr do sol. Estou aqui. Estou aqui! E caio em teus braços, tu seguras-me e eu agarro-te. Não me deixes… Não me deixes! Não seria capaz de fazer isto sem ti.

Não serei capaz de amar sem ti.

Ficamos imóveis um em frente ao outro, face com face, peito com peito, mão com mão, tão próximo que ouves o desacelerar do meu coração.

Há um silêncio que nos envolve, não é um silêncio de vazio, não. É um silêncio de completude. Cheguei, estou aqui. Respira. Amo-te. Abraça-me.

“I will gladly break my heart for you”

Deixa-me dizer-te, meu amor, não era isto que eu queria.
Ficar vulnerável à dor da tua partida.
Deixa-me que te diga, meu amor,
Não era isto que esperava,
Ficar susceptível à mágoa da tua indiferença.
Devo confessar-te, meu amor,
Que não contava
Apaixonar-me, assim, tão abruptamente.
Tenho de admitir, meu amor,
neguei até se tornar demasiado evidente,
Que o meu coração já estava entregue a ti,
E o meu corpo já sentia a tua falta.
Apesar do medo e da angústia,
Devo dizer-te, meu amor,
Que o risco da dor vale pela recompensa da felicidade.

Dicotomias

Tu fazes amor comigo, sim, quando me abraças na cama e me aconchegas no teu regaço, proteges-me com toda a tua envergadura e dizes que me amas ao ouvido.

Quando me despes e me olhas nua, mesmo quando não me sinto eu, tu desejas-me da mesma maneira (ou até mais) que no ínicio, fazes questão de me relembrar que sou sensual e apetecível – é aí que fazes amor comigo.

Quando caímos de corpos suados, sem fôlego, sem forças, invadidos pelas endorfinas de prazer que nos dá uma pedrada descomunal, o sexo a nossa droga, o amor a nossa cura – tu recuperas junto a mim e eu junto a ti, a nossa respiração que acalma no mesmo compasso e é quando cruzamos o olhar que não precisas dizer mais nada, é quando fazes amor comigo.

Tu fazes amor comigo quando me dizes “És linda” mesmo quando acho, sei ou me sinto uma desgraça.

Fazes amor comigo quando me confessas a tua tesão por mim e me fazes sentir desejada, me fazes sentir mulher, me fazes sentir tua.

Fazes amor comigo quando me revelas os teus desejos mais obscuros. Respondo-te com um sorriso provocador e tu sabes imediatamente qual será a tua absolvição e eu a minha penitência.

Na cama não fazemos amor. Se te quero dentro de mim quero que me fodas. Quero que me agarres e me tenhas para ti. Sem delicodoces, sem restrições. Tudo o que fantasiamos realiza-se entre nós, os tabus são para ficar fora dos lençóis. O romance não tem espaço entre dois corpos. Entre a nossa pele só há calor, suor, desejo e realização. Foder é a nossa profissão de fé, amar é a nossa consagração. E tu sabes disso.

Fodes-me porque me amas e eu amo-te porque me fodes.