A Graça de Ter uma Sombra
Antes da pergunta pertinente acho que urge a clarificação da palavra Sombra e seus significados.
Do Latim *sombrar, de* subumbrare < sub, sob + umbrare, fazer sombra, ou de sub illa umbra, de aquela sombra.
Esta palavra tem vários significados se analisarmos a sua utilização em sentido figurado:
silhueta;
parte escura de um desenho ou quadro;
espírito, espectro, fantasma;
pálida imagem;
ligeira aparência;
catadura;
nódoa, defeito;
pantalha;
solidão;
companhia inseparável;
guarda-costas;
pessoa decadente;
pessoa impertinente que segue outra;
mistério;
véu de tristeza.
Sendo os mais importantes para este texto os assinalados a negrito.
E agora que todos compreendemos, passo à pergunta pertinente.
Alguém sabe qual é a graça de ter uma sombra?
E respondo (é uma pergunta retórica) – Nenhuma!
Ter alguém decadente que nos segue impertinentemente tornando-se uma indesejável companhia inseparável. Quase um espelho que me imita em gestos, expressões e maneirismos que são únicos de mim mesma, que reflecte uma imagem (quase!) semelhante – mas que no fundo nada se parece comigo ou com ela mesma.
Vazia de personalidade, a minha sombra copia-me por osmose, o cabelo, o andar, a gargalhada.
Pensa-se original e apetece-lhe destacar-se, mas não pode por ser cinzenta.
O cinzento não se destaca. Não! Mistura-se na multidão de sombras, perde-se.
Por isso tenho pena da minha sombra, carece de auto-estima, de individualidade, daquilo que nos torna nós mesmos – únicos e inconfundíveis.
Já lhe tentei mostrar que para ser especial não tem de ser como eu, tem apenas de descobrir no seu interior as suas qualidades e ter consciencia do seu “eu”.
Até lá tenho uma sombra, um cinzento do meu eu. E não acho graça nenhuma.

"Pensamentos tornam-se coisas"
