A surdina dos dias intermináveis

Sem ti o meu coração esvazia. Apenas se escuta um murmúrio. As horas passam lentas e vagarosas e a tristeza assombra-me, como a escuridão numa casa vazia. Eu já nada sinto e sem ti já nada tenho.

E imagino dias assim a desdobrarem-se até ao infinito. Talvez lá mais à frente a tristeza já esteja também distante. Mas isso é depois, não é agora. Agora estou endurecida pela mágoa, pela quietude inquieta da distancia, o medo que paralisa, o silêncio que fere, as palavras que rasgam, as lágrimas que caem, o vazio que sufoca, a ilusão que medra e molesta. A ilusão não existe, mas a sua presença é tão real, demasiado até, porque corta e dilacera e faz questão de rir na minha cara, me mostra o quão surreal é este querer.

E eu páro, deixo de sentir, deixo de querer, deixo de ser, torno-me passageira no comboio da indiferença que me leva a alta velocidade para o nada. Cada vez mais sei que o nada é o destino final.

O nada dói. O nunca dói.

Amar-te arrasta-me para as profundezas de um impossível.

 

 

Se me disseres “Vem” eu fecho os olhos e vou.


Se me disseres “Vem” eu fecho os olhos e vou. A paixão tem destas coisas, acções inconsequentes, escolhas impulsivas, palavras ditas a quente. E eu vou, sem pensar, vou ao teu encontro porque é o que o meu coração mais anseia. E quando estou apaixonada não consigo não cumprir o que o meu coração me manda. Ele dita e eu escrevo, todas as palavras são sempre tuas ou por ti ou contigo.

Até na minha mente, na sede do racional, o teu nome, o teu toque, tu, causam o caos. Não há racional que resista a esta paixão que sinto por ti.

E mesmo que saiba que não posso, ou que não devo, que não tenho, que não fico, eu fecho os olhos a todos os Se e Mas, e vou. Vou até ti. E sigo com a respiração em suspenso e só quando me beijas é que recupero o fôlego. Por isso consegues imaginar a minha ansiedade, se só consigo recuperar o fôlego junto a ti, se só consigo respirar contigo.

E quando me tocas roubas-me todas as palavras e arrancas-me os pensamentos. Não consigo mais nada a não ser estar em ti. Entro em êxtase, em plenitude, em zen, em nirvana…chamem-lhe o que quiserem.

És tu.

És tu que fazes todo o sentido em mim, mais ninguém, só tu.

E é por isso, só por isso e por tudo isto, que se me disseres “Vem” eu fecho os olhos e vou.

 

Na vertigem da saudade.

Vou escalando a saudade a medo,
Sem olhar para baixo, sem olhar para trás.
A saudade persegue-me. Ela encontra-me.
É o juiz, é a sentença é o capataz.
Não há nada pior que a saudade
Que me vicia por parecer doce mas é fel,
Que me fere e me compele à escuridão.
Tento a todo o custo libertar-me das suas garras mas é em vão.
Ah a doce vertigem da saudade!
A cada passo incerto a saudade pesa no meu coração.

 

“Não penses em mim”


Era a última coisa que me dizias sempre que te despedias de mim. Como poderia eu não pensar em ti, era um truque teu, assim tinhas a certeza que ficavas marcado no eco das tuas palavras.

Por vezes era o que de desejava, não pensar em ti, pelo menos assim não me sentia constantemente invadida pela tua presença ausente. Conseguia sentir os teus beijos, mesmo que não me estivesses a beijar. Conseguia sentir-te a km de distância, cada vez mais perto do meu coração. “Não penses em mim”… Pfff, que brincadeira de mau gosto essa. Arrancavas palavras do meu peito como se fossem tuas. Amo-te, quero-te, tenho-te. E levianamente dizias-me, autoritário, não te esqueças de mim. Como se fosse possível ignorar as marcas de quando rasgaste o meu coração e guardaste em ti todos os pedaços, garantindo que eu era só tua. De mais ninguém. Sabias que era improvável esquecer-te. Como poderia, já fazias parte de mim e esquecer-te seria quase como renegar-me. Viveria incompleta.

E num abraço sufocante ias embora, sem olhar para trás, cobarde.

E eu ficava a tentar não esquecer, a tentar não pensar.

 

Até amanhã.

Ela acorda de manhã sempre com a sensação de que lhe falta algo. Ela sabe o que é mas não diz, nem a si mesma, pelo menos tenta. Porque dói quando o nome dele soa na sua pele. Ela olha o telemóvel e aperta a mão contra os lençóis. “Não faças isso!” – pensa para si mesma. É inconsciente, ela procura-o sempre, todas as manhãs. Mas ele já não está, ou nunca esteve, já não sabe bem. Mas o esforço para contrariar esse impulso, é muito consciente, talvez demasiado. Todas as manhãs ela contorce-se e deixa o seu coração sentir saudade.

Levanta-se. Todo o peso de um dia que ainda nem começou já faz a sua alma sentir-se curvada.

Endireita-se. “Não sinto a tua falta.” – pensa para si mesma – “Não posso”.

Olha-se ao espelho e sorri a si mesma. Sente o vazio do silêncio, lava a cara. Sorri, mas nada sente.

Quando veste o soutien e puxa a alça para o ombro lembra-se de como ele passava os dedos por baixo da alça e fazia o gesto inverso. E enquanto a alça descaía ela conseguia ouvir a respiração dele à medida que ele se aproximava para lhe beijar o ombro.

Solta um suspiro em modo de gemido.

Ela sente falta. Era ele. Era ele que lhe fazia falta. Todas as manhãs, todas as noites.

E olha para o telemóvel, e não pode, não pode dizer-lhe. Então diz a si mesma: “preciso de ti”. Mas ele não responde, claro que não, ela sabe disso e mesmo assim ela espera uma resposta que não chegará.

Nunca amou nenhum homem assim. Como se cada inspiração fosse a última, magoava-a demais, mas tinha de o amar. Não tinha como não o sentir. Não tinha como não o querer. Era ele quem lhe fazia falta.

E sai de casa, entra no carro, liga o rádio do carro e tenta baixar o volume do coração.

Durante o dia tenta esquecê-lo. Quando chega à noite atira tudo para o chão, despe-se, desliga o filtro, e atira-se para a cama em silêncio. Liga a música e tinha logo de ser aquela, que a faz pensar nele. Permite a si mesma sentir um pouco mais a sua falta.

A sua respiração torna-se pesada, triste. E aquele vazio avassalador arrasta-a.

Antes de adormecer recorda-se de quando ele a beijava e lhe dizia olhando nos olhos que amava.

Uma lágrima rompe o silêncio e ela sente a sua falta. Até adormecer, e já não sentir mais nada.

Até amanhã.

 

És a pele da minha pele.
Quando me abraças, o teu abraço é o meu.
E se te beijo os meus lábios são teus.
E se dizes que me amas, o teu coração acelera e o meu corpo vibra.
Quando me olhas nos olhos, a minha alma é a tua.
E o calor da minha paixão, atiça o fogo do teu desejo.
As tuas mãos são minhas, quando percorres pelos meus ombros, sentes o meu corpo a contrair, numa vontade que é só tua.
A minha respiração é ofegante, mas é o teu peito que acelera, quando te sinto, o meu corpo no teu.
Se fecho os olhos é a ti que vejo. Sei cada detalhe do teu sorriso, pois trago-o no meu.
E quando abres os olhos, vejo o meu reflexo em ti.
Tu estás em mim e eu quero ser tua.

Pele da minha pele

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Sophia de Mello Breyner Andresen em Coral

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Esperança fingida

Esperança fingida.
Espreitas pela escuridão como um pequeno rasgo de luz num negro céu infinito. E eu teimo em não te querer ver.
Esperança fingida.
Existes para me iludir, contas a história que quero ouvir, com as palavras que quero dizer e dizes-me que o coração não mente.
Não mente? Mentes-me tu, esperança fingida, queres fazer-me acreditar em ti e ganhar forças na minha ingenuidade.
Vais me dar a mão até quando? E deixas-me cair no vazio da ilusão desamparada! Esperança fingida, que fazes tu aqui outravez?
Já não te tinha dito para não voltares! E chegas com as tuas palavras sibilantes que me seduzem a alma. Porque quero tanto acreditar, mas o abismo puxa-me e não consigo!
E continuo a cair! E até quando?
Estendes-me a falsa rede de segurança, feita de linhas de papel trémulas, vazias, transparentes.
Dilacerante esperança fingida!

 

Já não sei se é real

Já não sei se é real.
Já não sei o que é real e o que não é. De alguma maneira fui perdendo as peças no entretanto. Estarei a alimentar uma ilusão?
Será isto verdadeiramente?
De repente acordo de um rush de sensações e caio dormente. Não te consigo ouvir. Não te consigo ver. Estou a tentar.
Em nome de quê?
Quase nem te consigo sentir.
Não te consigo tocar.
Está a acontecer.
A reconversão das sensações a memórias.
Neste momento.
O meu cérebro está a quebrar cada pedaço teu e a transformar-te numa imagem. Sem som, sem cheiro.
Estou submergida num mar ensurdecedor de silêncio de emoções. Já nem sinto o teu coração bater.
Estás à margem da distância.
E fica tudo por responder.
Não consigo respirar. Eu, tu e nada.
Já não fomos.
Já não seremos.

 

As minhas mãos são as tuas e sinto-te a deslizar pela minha pele. Suavemente arrepias cada milímetro do meu corpo.
Sabes exactamente onde parar e quando continuar.
Pousas a mão no meu peito enquanto o sentes a subir e descer no ritmo do meu respirar ofegante.
Os teus lábios são os meus e sinto o calor da tua expiração no meu ombro.
Marcas a cada beijo um lugar que é só teu e continuas até que seja completamente entregue a ti.
Já não sobra espaço para mais desejo e as minhas pernas fazem-me tua quando te abraço para dentro de mim. Neste enlace inquebrável que é o teu corpo no meu corpo que é teu.
E a paixão corre enfurecida por meandros e canais do meu (teu) coração, inunda e revela possibilidades jamais imaginadas.
E tu que me olhas profundamente na alma e me reconheces em ti mesmo.
Já estive em ti mas não o sabia.
E agora sabes de certeza que te marcaste na minha essência.
Ferida rasgada com doce sabor a mel.
O momento que ficará para sempre cicatrizado no meu coração, quando percebi o quanto te poderia amar.

O teu espaço no meu

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