Incenso

Chegas e atiças-me fogo com a tua chama. Entro em combustão de dentro para fora e de fora para dentro. És a minha pele, estás na minha pele que queima violentamente, descontroladamente.
Deixas-me assim a consumir-me pelo teu fogo, lentamente, como um incenso que vai dissipando a sua essência.
É assim que me queres? Consumida por ti, febril, na brasa lenta da tua tesão.
Consegues sentir? Porque eu sinto-te a entrar em cada poro, cada milímetro do meu corpo responde a ti. Submete-se a ti. Consome-se por ti. Espera por ti. Pacientemente, ansiosamente.

Apaixonadamente.

 

A doença que é amar-te.

Só passou um dia mas parece que voou toda uma eternidade.

Já não te disse olá quando acordei.

Continuas a surgir no meu pensamento enquanto as horas se arrastam pela sala vazia, não te consigo ver mas ainda te consigo sentir.

Há um vazio mudo nas palavras.

Arrasto-me pelo silencio da mágoa. A única coisa que ficou. Mágoa, solidão, medo, saudade, amor. Tudo o que resta mas não chega, tudo o que dói mas não parte. Permanecem para me recordar o quanto fazes falta, mesmo não estando.

Que raio de merda é esta a paixão?

Ouço-te dizeres-me num sussurro que me amas, a medo, porque sabes que estamos condenados ao nada. E eu também o sei. Sempre soube. Mas dizes na mesma e o amor cai como uma pedra no nosso coração. Destruidor. Totalmente o oposto daquilo que achamos que o amor é: destrói, amarra, magoa, fere, rasga, ensurdece, amarga, distancia, endurece, quebra, queima.

E se 24 horas sem ti pareceram uma vida…

Tinhas de aparecer e levar tudo de mim contigo. Arrancaste-me a alma e agora não consigo mais amar. Não consigo pensar no nunca ou no sempre.

Quero arrancar esta doença do meu peito.

Quero apagar a tua presença do meu corpo.

Quero tapar o vazio da tua ausência.

Não. Quero sair da impossibilidade.

Pára de respirar no meu ombro e de me beijar o pescoço, não aguento mais continuar a saber que ainda me amas e que ainda te amo. Este amor doente, decadente, moribundo.

Sem espaço, sem tempo nem circunstância.

Condenado à morte desde o primeiro eterno segundo.

Deixou-nos a sentença da saudade e da distância.

 

É a Lei da Vida

Não há nada mais desolador do que a sensação de impotência perante o sofrimento de alguém que nos é próximo, que nos é querido.
As Leis dos Homens e as Leis de Deus deixam de fazer sentido, todos os dogmas caem por terra. Imperam as Leis da Vida que se fazem valer, duras, cruas, não escolhem pessoas, idades, tempo. Acontecem. Fazem-se acontecer. Ensinam-me uma lição de humildade.
Tem de acontecer, mas porque tem de ser assim? Ninguém responde. É a vida. É a morte. Não há palavras que possam descrever ou confortar. Só há silêncio. Mas eu tento resistir-lhe, o silêncio está cheio de vazio. E no vazio não há nada. E não quero que os últimos momentos sejam envoltos num nada, não quando houve uma vida cheia de tudo. Há que respirar fundo e tentar encher o nada de calor, de força de amor. Não são precisas palavras, não são. As palavras fazem parte da Lei dos Homens, tornam-se inúteis, desprovidas de sentido. A Lei da Vida é a energia. Que passamos, que recebemos. Tento procurar no mais ínfimo de mim a força, a calma, o amor quente. Tento não chorar e não deixar passar a mágoa e a revolta.
Não.
Este silêncio não pode ser vazio. Nem pode ser cheio de demasiada tristeza.
A única coisa que posso fazer com este sentimento impotente perante as Leis da Vida é transformar o vazio num cheio de paz.
O teu corpo sofre, mas já não o sentes. Quero acreditar que a tua alma já se prepara para voltar a ser energia pura do universo.
A casca dolorosa fica para trás, de nada nos serve mais no final.
Tiveste uma vida cheia, viste os filhos a crescer, os netos a crescer e o mundo a mudar. Não deveria acabar assim, é certo, mas é a Lei da Vida. Não deixa de ser injusto. Mas a injustiça é uma coisa terrena, dos Homens e de Deus.
A Vida essa acontece e a Morte também.
E não nos podemos deixar consumir pelos sentimentos e energias negativos, não. Esses não fazem falta. Agora só precisamos de amor, calma, paz e aceitação. Para que a sua energia flua calmamente de volta ao Universo, às estrelas, à Vida.

Até sempre.

Chuva Lá Fora

O mundo não acabou pois não? É só mais um passo. Pensas que caíste no abismo, mas não, na realidade afastaste-te dele. Sei que não o parece agora, mas é a verdade.

(Abraça-me)

Não sentes? Parece até que já respiras melhor. Não tenhas medo. Pensas que estás sozinha mas não estás. Estavas antes, agora não. Agora consegues ver quem está lá fora? Abre o teu coração e deixa-te sentir. Já não precisas mais erguer muralhas para te protegeres. Já estás cá fora. À chuva! Não é fantástico?
A maneira como sentes a vida a escorrer-te pela cara? Não penses que são lágrimas de tristeza, não são! São as gotas de chuva que te acordam para um outro mundo, um que existia cá fora mas tu tinhas medo de sair!
Tens frio? Eu sei… por momentos pode tirar o fôlego. Mas não temas. Eu estou aqui e tu estás aqui! Ouviste? TU. Tu estás aqui!
Saíste. Tentaste. Fizeste. Lutaste.
Não. Não baixes a cabeça, escuta-me! Ergue o teu olhar e sente! Vê e sorri!

Vive mais um pouco! Fecha o guarda-chuva e corre! Não precisas de abrigo, precisas de espaço para voar!
Sai! Escapa-te! Ama e ferve! Já podes voltar a sentir. Já podes voltar a ser!
Não tenhas medo da chuva lá fora!

Não tenhas medo da chuva lá fora.

A surdina dos dias intermináveis

Sem ti o meu coração esvazia. Apenas se escuta um murmúrio. As horas passam lentas e vagarosas e a tristeza assombra-me, como a escuridão numa casa vazia. Eu já nada sinto e sem ti já nada tenho.

E imagino dias assim a desdobrarem-se até ao infinito. Talvez lá mais à frente a tristeza já esteja também distante. Mas isso é depois, não é agora. Agora estou endurecida pela mágoa, pela quietude inquieta da distancia, o medo que paralisa, o silêncio que fere, as palavras que rasgam, as lágrimas que caem, o vazio que sufoca, a ilusão que medra e molesta. A ilusão não existe, mas a sua presença é tão real, demasiado até, porque corta e dilacera e faz questão de rir na minha cara, me mostra o quão surreal é este querer.

E eu páro, deixo de sentir, deixo de querer, deixo de ser, torno-me passageira no comboio da indiferença que me leva a alta velocidade para o nada. Cada vez mais sei que o nada é o destino final.

O nada dói. O nunca dói.

Amar-te arrasta-me para as profundezas de um impossível.

 

 

Se me disseres “Vem” eu fecho os olhos e vou.


Se me disseres “Vem” eu fecho os olhos e vou. A paixão tem destas coisas, acções inconsequentes, escolhas impulsivas, palavras ditas a quente. E eu vou, sem pensar, vou ao teu encontro porque é o que o meu coração mais anseia. E quando estou apaixonada não consigo não cumprir o que o meu coração me manda. Ele dita e eu escrevo, todas as palavras são sempre tuas ou por ti ou contigo.

Até na minha mente, na sede do racional, o teu nome, o teu toque, tu, causam o caos. Não há racional que resista a esta paixão que sinto por ti.

E mesmo que saiba que não posso, ou que não devo, que não tenho, que não fico, eu fecho os olhos a todos os Se e Mas, e vou. Vou até ti. E sigo com a respiração em suspenso e só quando me beijas é que recupero o fôlego. Por isso consegues imaginar a minha ansiedade, se só consigo recuperar o fôlego junto a ti, se só consigo respirar contigo.

E quando me tocas roubas-me todas as palavras e arrancas-me os pensamentos. Não consigo mais nada a não ser estar em ti. Entro em êxtase, em plenitude, em zen, em nirvana…chamem-lhe o que quiserem.

És tu.

És tu que fazes todo o sentido em mim, mais ninguém, só tu.

E é por isso, só por isso e por tudo isto, que se me disseres “Vem” eu fecho os olhos e vou.

 

Na vertigem da saudade.

Vou escalando a saudade a medo,
Sem olhar para baixo, sem olhar para trás.
A saudade persegue-me. Ela encontra-me.
É o juiz, é a sentença é o capataz.
Não há nada pior que a saudade
Que me vicia por parecer doce mas é fel,
Que me fere e me compele à escuridão.
Tento a todo o custo libertar-me das suas garras mas é em vão.
Ah a doce vertigem da saudade!
A cada passo incerto a saudade pesa no meu coração.

 

“Não penses em mim”


Era a última coisa que me dizias sempre que te despedias de mim. Como poderia eu não pensar em ti, era um truque teu, assim tinhas a certeza que ficavas marcado no eco das tuas palavras.

Por vezes era o que de desejava, não pensar em ti, pelo menos assim não me sentia constantemente invadida pela tua presença ausente. Conseguia sentir os teus beijos, mesmo que não me estivesses a beijar. Conseguia sentir-te a km de distância, cada vez mais perto do meu coração. “Não penses em mim”… Pfff, que brincadeira de mau gosto essa. Arrancavas palavras do meu peito como se fossem tuas. Amo-te, quero-te, tenho-te. E levianamente dizias-me, autoritário, não te esqueças de mim. Como se fosse possível ignorar as marcas de quando rasgaste o meu coração e guardaste em ti todos os pedaços, garantindo que eu era só tua. De mais ninguém. Sabias que era improvável esquecer-te. Como poderia, já fazias parte de mim e esquecer-te seria quase como renegar-me. Viveria incompleta.

E num abraço sufocante ias embora, sem olhar para trás, cobarde.

E eu ficava a tentar não esquecer, a tentar não pensar.

 

Até amanhã.

Ela acorda de manhã sempre com a sensação de que lhe falta algo. Ela sabe o que é mas não diz, nem a si mesma, pelo menos tenta. Porque dói quando o nome dele soa na sua pele. Ela olha o telemóvel e aperta a mão contra os lençóis. “Não faças isso!” – pensa para si mesma. É inconsciente, ela procura-o sempre, todas as manhãs. Mas ele já não está, ou nunca esteve, já não sabe bem. Mas o esforço para contrariar esse impulso, é muito consciente, talvez demasiado. Todas as manhãs ela contorce-se e deixa o seu coração sentir saudade.

Levanta-se. Todo o peso de um dia que ainda nem começou já faz a sua alma sentir-se curvada.

Endireita-se. “Não sinto a tua falta.” – pensa para si mesma – “Não posso”.

Olha-se ao espelho e sorri a si mesma. Sente o vazio do silêncio, lava a cara. Sorri, mas nada sente.

Quando veste o soutien e puxa a alça para o ombro lembra-se de como ele passava os dedos por baixo da alça e fazia o gesto inverso. E enquanto a alça descaía ela conseguia ouvir a respiração dele à medida que ele se aproximava para lhe beijar o ombro.

Solta um suspiro em modo de gemido.

Ela sente falta. Era ele. Era ele que lhe fazia falta. Todas as manhãs, todas as noites.

E olha para o telemóvel, e não pode, não pode dizer-lhe. Então diz a si mesma: “preciso de ti”. Mas ele não responde, claro que não, ela sabe disso e mesmo assim ela espera uma resposta que não chegará.

Nunca amou nenhum homem assim. Como se cada inspiração fosse a última, magoava-a demais, mas tinha de o amar. Não tinha como não o sentir. Não tinha como não o querer. Era ele quem lhe fazia falta.

E sai de casa, entra no carro, liga o rádio do carro e tenta baixar o volume do coração.

Durante o dia tenta esquecê-lo. Quando chega à noite atira tudo para o chão, despe-se, desliga o filtro, e atira-se para a cama em silêncio. Liga a música e tinha logo de ser aquela, que a faz pensar nele. Permite a si mesma sentir um pouco mais a sua falta.

A sua respiração torna-se pesada, triste. E aquele vazio avassalador arrasta-a.

Antes de adormecer recorda-se de quando ele a beijava e lhe dizia olhando nos olhos que amava.

Uma lágrima rompe o silêncio e ela sente a sua falta. Até adormecer, e já não sentir mais nada.

Até amanhã.

 

És a pele da minha pele.
Quando me abraças, o teu abraço é o meu.
E se te beijo os meus lábios são teus.
E se dizes que me amas, o teu coração acelera e o meu corpo vibra.
Quando me olhas nos olhos, a minha alma é a tua.
E o calor da minha paixão, atiça o fogo do teu desejo.
As tuas mãos são minhas, quando percorres pelos meus ombros, sentes o meu corpo a contrair, numa vontade que é só tua.
A minha respiração é ofegante, mas é o teu peito que acelera, quando te sinto, o meu corpo no teu.
Se fecho os olhos é a ti que vejo. Sei cada detalhe do teu sorriso, pois trago-o no meu.
E quando abres os olhos, vejo o meu reflexo em ti.
Tu estás em mim e eu quero ser tua.

Pele da minha pele

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